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Apenas o Poema

cemitério de pipas

cruza varetas de bambu
trinta cm de papel seda
uma criança passa cola nas bordas do papel e amarra a ponta da vareta a um carretel de linha
enfeita com rabiola

aos grã-cidadinos que crêem
em extinta atividade de pipa,
crianças ainda brincam
no interior do país
o mercado insiste num público alvo masculino na confecção do papel
embora não exista gênero pra voar!

vida curta da pipa
enroscada
na fiação dos postes

se desconhece a dor da criança
no gesto do desespero chacoalha o corpinho tentando chacoalhar o poste
busca vento
só chega a voz materna
alertando sobre
choque ou queda
forças ocultas da eletricidade

criança chora, corre e esquece
fica pipa na paisagem atravessada
em poucos dias
sobra a cruz intacta
pra contar história




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Escrita Criativa Sem categoria

Sabotadora

são os olhos o caminho para aquecer a cabeça, fervilhar as ideias, abafar o entorno, nuca de pombo. gatilho. afundo, no fundo, raspo barriga levanto poeira. Sereia & Pescadora. afogo.

que mané prosa poética; poesia em prosa. Texto, é texto que fala. tantas são as preocupações com gêneros, normas. posso só expor e deixar inconcluso (sem reticências).

“Você não faz poesia”. “Sua visão de literatura é ingênua”. “Não tens ritmo”. esta voz é tua, amigo, mas é minha, distante, em grande parte. preciso dizer não sem me contorcer. lá estou quebrando o pau de alguma maneira.

Quebrando o pau cerebral. Quebrando o pau na parede. Quebrando o pau rente à testa. Quebrando o pau no espelho. Quebrando o pau com o pau.

: justificativas; levantamento de voz; última palavra; exímia retórica; transpirante de lógica; chutar a canela de chinelo, vestida tênis, eis minha vocação romântica, retratar covardia

dar com o pau no outro, quebrá-lo em caquinhos, varrer pra baixo do tapete. roubar do outro algo que ele goste e enterrar. cambalhota, sou seletivamente boa. entro na lata, moro na lata, limpo a lata, seco a lata, a lata é tudo que tenho. subo ao topo da lata com uma coroa improvisada de papelão, capa de lixo é meu manto, parangoleio & como não poderia deixar de ser, sou tirana com os súditos que só a mim escutam, só eu os vejo.

resguardando a sintaxe dos doidos, a sintaxe não dos cínicos. quis dizer, mas o que disse foi um grunhindo e um grito que calejou as cordas perpendiculares ao meu corpo. a rouquidão desde criança. tetê. tá. tó ou o mundo nos dentes.

quero escrever a bíblia em 500 caracteres e sozinha. pra tacar fogo na obra apenas usando um palito de fósforo. parem me vejam assoprar a velinha. comandando. erguida por morador em situação de rua enlaçados aos dos jardins paulista. destacada, curtida: olhos carregados de enxofre, cabelo oleoso, graxa na bochecha, como uma diva. pra lá dar de cara com o cargo de Parangolé da Língua.

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ensaios

Como “A Vegetariana”, de Han Kang, mexeu com minha vida

Ainda sou da “velha – guarda” da leitura, aquela que confia nas editoras para embarcar numa leitura de alguma obra contemporânea, diferente do que estamos vivendo a partir das redes sociais, onde muitas leituras são motivadas pelos próprios autores. Resolvi também trocar todas as leituras para e-books, ficando apenas com os livros que somente existem no formato físico ou que estejam autografados. Sendo assim, facilmente me foi recomendado “A Vegetariana”, editada pela Todavia Livros. Por ser uma literatura sul-coreana o interesse aumentou ainda mais. Nunca havia lido nada de literatura asiática. E fui com aquele olhar crítico que já busca o ponto narrativo, já se embrenha na linguagem e já aguarda uma forma excepcional.

Nada disso. 3 narradores em primeira pessoa. 2 homens e 1 mulher. Todos da mesma família ligados a uma personagem que decidiu se tornar vegetariana por causa de sonhos (secretos) e acaba levando sua ideia as últimas consequências (spoiller) decidindo por se alimentar apenas de luz. Esta mulher se chama na obra Yeonghye. Neste blog não quero fazer uma resenha crítica sobre a obra, pois não é um tipo de texto que gosto de refletir, talvez por ter feitos muitos deste tipo na faculdade, mas deixo uma resenha nota 10 do blog da Litera Tammy, dedicada a este tipo de conteúdo: https://www.literatamy.com/post/a-vegetariana-han-kang .

Nesta leitura quero falar de um aspecto subjetivo na obra que me arrebatou e fez com que eu me tornasse outra pessoa após a leitura, a consciência de que a interioridade do outro é inacessível. Já sabia, em tese, já aconselhei a amigos sobre, já ouvi diversas vezes pela boca da minha psicanalista, mas não caia a ficha, vivia as voltas em INVADIR o outro na tentativa ilusória da COMPREENSÃO. Foi nessa trama, considerada um tanto obscura como qualquer interioridade, que pude viver fora de mim o que vivo cotidianamente. Yeonghye não tem voz na narrativa, ela é sempre a outra. Ela decide parar de comer carne e as pessoas tentam enquadrá-la como vegetariana. Ela quer virar folha, ela tem uma marca ancestral na sua nádega, ela está no leito de um hospital por não querer ingerir alimentos, por ser considerada doida. Tudo isso é o que os outros falam dela. Mas ninguém consegue compreender sua inanição, para assim respeitar. A partir disso, o núcleo familiar desaba com separações, assédios, traições e desprezo. Sua irmã, que narra a última parte do livro, tenta mudar o destino de Yeonghye, convencê-la, trazê-la ao mundo dos “normais”, em vão. Não se trata de uma aceitação da condição do outro, mas de uma completa impossibilidade de intervir na subjetividade alheia.

Até mesmo nosso interior é inalcançável, como percebemos ao acordar de um sonho e nos sentirmos alheios a ele. No período que vivo, de um luto sem precedente que se somou a uma pandemia em que o mundo está de luto junto, fiquei num primeiro momento me atormentando com a partida precoce da minha mãe, o que nas suas escolhas levaram a morte? O que eu poderia fazer de diferente para salvar minha mãe que optou por deixar – se secar, assim como a vegetariana? Sabia que não havia respostas, ela já está morta e essas questões só trazem sofrimento e constatam a nossa incapacidade perante a vida. Mas o livro trouxe uma resposta que aliviou minha mente exausta com essas ideias, não que agora eu esteja plena, tenho uma insatisfação do tamanho do universo num corpo de 1,65. Mas a leitura me trouxe uma imagem, anterior as palavras, quase mística que me fez sair do desconforto do inexorável: uma chama enorme e verde. Na realidade eram árvores vistas por olhos embaçados que se tornaram imensas chamas verdes.

Estas chamas verdes foram a luz no final do túnel. Na realidade todo o compartilhamento da minha experiência sentido de fora, através da leitura de uma obra sul-coreana, fez eu ter mais consciência da minha opressão perante a morte materna. Não ter controle das decisões da Yeonghye, de mamãe, vai além do que as testemunhas possam imaginar, crer e sentir… Esse livro me possibilitou um alívio, apesar de tanto mistério, tensão e violência, eis a magia da literatura!

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Carrego (elas) Comigo

Terminando a novela da escritora Fabrina Martinez “Sabendo Que És Minha”, editora Jandaíra, recomendada pelas redes sociais, não conhecia a autora e me interessei pelo tema: o livro fala sobre o luto da autora que perdeu a mãe.

( Parece que quando perdemos nossa mãe não podemos falar por mais de 5 dias sobre isto. Falar dos sonhos ou da análise parece uma trapaça para podermos falar sobre a morte da mãe, alguma etiqueta invisível me diz “não fale sobre sua mãe, nem sobre sua análise e nem sobre seus sonhos, não interessa a ninguém além de si.”). Pois é exatamente sobre mãe morta, divã, sonhos e silêncios que o livro fala.

O li numa tarde, agora faltando o último capítulo eu interrompi o ritmo, sempre faço assim, empaco na última página: apego. Fui rainha dos apegos, aquela que o dente da frente caiu sozinho de tanto que o cultivei mole e intocável na boca, aquela que abandonou as tetas aos 4 e o bico aos 11. A que entrava quase em convulsão quando se perdia qualquer borracha ou apontador na sala de aula e a que lavava as mãos no sabonete pelas beiradas para não apagar a marca dele cravada em seu centro.

Mas isto faz tempo, aprendi a me controlar ou fingir que me controlo, porém, vejo migalhas do meu apego controlador por baixo de todos os móveis da casa. Perdi minha mãe algumas vezes na vida, a primeira que me recordo foi para os seus amigos do sacolão, quando ela queria dançar forró a noite toda e eu criança na sua barra, ela me dava batida de coco, dormia que era uma beleza, acordava quase mijada na madrugada com algum dos seus amigos me pegando no colo e me levando até a porta do meu prédio, mas eu tinha que me levantar de qualquer forma, morávamos no 4 andar e não havia elevador. Subia vendo o sol nascer e não dormimos juntas como era de praxe! (já que ela não queria dormir mais com meu pai desde que eu me conheço por gente). Perdi a minha mãe para a madrugada, e a perdia no almoço para o seu mau-humor e ressaca. Perdi minha mãe para o cheiro do esmalte e lixas quando ela decidiu voltar a trabalhar por eu, sua caçula, já estar grandinha. Perdi minha mãe para as tardes intermináveis da escola. Porém, quando ela decidiu, na minha adolescência, ir embora de casa, eu a apoiei a ir embora, estava embebida de feminismo e queria que minha mãe assumisse seu amante e fosse feliz, meus irmãos estavam de acordo também, ela não nos entendeu ou não quis nos entender e disse, até meses antes de morrer, que havíamos a expulsado de casa. Mas como eu poderia expulsar minha mãe se eu era a filha, como eu poderia expulsar a adulta se eu era a adolescente, como eu poderia expulsar ela da casa que nunca foi minha?

A Márcia, minha analista que me acompanha há 13 anos – minha relação mais longingua e bem sucedida, por mais deprimente que isso pareça -, me conquistou quando tirou a culpa de que eu expulsei minha mãe da minha vida. Ela me colocou limites e me colocou no meu lugar, uma avalanche de compulsão escorreu pelos meus poros, daí eu soube que me apegaria à Márcia igual um afogado se apega num corpo boiando. Não foi o suficiente, mamãe foi pra sua cidade natal, a perdi para a estrada da Anhaguera e até pânico tive. Mas nunca as crises foram relacionadas diretamente com sua partida, eu aceitava tudo que vinha da minha mãe com bons olhos e otimismo, como se o próprio movimento dela fosse minha religião, mas por baixo de uma moça agradável, havia a não aceitação das perdas. Sabia que não podia mais desmaiar, gritar e chorar que minha mãe não viria, então eu dei pra ter taquicardia, falta de ar, alergias e uma personalidade um tanto destemida, atrevida, foi este meu jeito que me fez sofrer de pânico, pois eu me colocava em perigo o tempo todo. Somente quando eu tive um pesadelo estranho com minha mãe e minha irmã que se matava no sonho e mamãe me culpava de certa forma, que eu entendi: sentia culpa de ter nascido. Os suores noturnos, maus presságios e palpitação sumiram num passe de mágica. Os antidepressivos foram largados e eu voltei a ser meio deprimida, deixando o ar destemido para a gaveta com pilhas gastas, clipes e uma fotografia antiga em preto e branco de alguma tia-avó.

Como sublimo muito meus terrores na política, digo que perdi minha mãe também para a ignorância que os pobres são submetidos. Mamãe tinha medo de médico, mas tinha muita fé, falava sempre com fatalismo sobre sua morte “Seja o que Deus quiser” e deixou-se sangrar até virar uma criança de tão pequena, frágil e doente. Depois virou uma recém nascida e foi assim, sem poder falar e nem andar que fiquei ao seu lado em seu leito de morte. Ela jurava que algum espírito ruim tinha se apossado dela. Eu ficava deprimida pra burro escutando isso. Com os rins falidos, ao ser higienizada pelas enfermeiras, ela gritava pela dor que a morfina não dava conta, eu sussurrava em seu ouvido, “mãe, tá tudo bem, já vai passar…” E ela voltava ao sono do coma. Ela só se tranquilizava com minha voz, ela era um embrião e reconhecia minha voz. Deixou seu marido ao meu lado, aguardando comigo a parada do seu coração. 4 da manhã de uma segunda de Carnaval seu coração parou. Não quis tocar em seu corpo, não toquei nunca mais, fiquei com o calor de sua mão calejada pela agulha do crochê na minha memória táctil. Ainda sou apegada, não quero o corpo morto da minha mãe na ponta dos meus dedos. Ela morreu em Barretos, tive que voltar com seu marido até sua cidade natal, naquele carro silencioso, sufocado, aliviada pela dor dela ter terminado, sim, aliviada pelo sofrimento dela chegar ao fim, pois já tinha deixado de crer em milagres faz tempo e já tinha abandonado a minha própria dor para ter compaixão pela minha mãe desenganada. Sabendo que teria que olhar para a minha avó e meus irmãos e dizer o quê… Que ela não sofreu, não é mentira, ela estava dormindo calminha fez 3 dias morreu, morreu em paz, diferente dos últimos 6 meses que agonizava na cama. Antes de acordar sonhei com ela caindo do leito do hospital direto ao meu corpo que estava deitado no chão, ela me batia, pedia para eu deixá- la ir. Abri os olhos e seu marido estava fazendo carinho nela e me disse “Ela se foi”, “Faz tempo?”, “Não, foi agora mesmo”. O coração parou e o quarto amanheceu. Os mesmos piados de todos os cantos anunciando o dia, a semana, minha nova vida sem ela olhando pra mim.

Não fiquei empolgada com o livro da Fabrina como eu pensei que ficaria, me apeguei a ideia de que ele teria algo mirabolante que me ajudaria a superar o momento, que bom que ele não é assim, não ilude as pessoas. Sua narrativa me presenteou com um sonho nesta noite em que percebi ainda estar revoltada com tudo. A melancolia e seriedade que me acometeram na leitura modificou a esperança de ser feliz a qualquer custo para um lampejo de energia que me possibilitou escrever: fiz este texto e revivi meu blog. Fabrina se permite falar de seu luto de uma forma tão densa que me envergonhei de sofrer diferente, comedida, sem depressão e disposta a mudar junto com a morte com naturalidade de bicho. Fico com medo dos recalques que me esperam na surdina para se erguerem e me darem um treco.

Mamãe era quase uma entidade pra mim, ela se foi 1 mês depois o mundo mudou pela pandemia, por mais que eu saiba que foi coincidência, ainda sinto um complô misterioso no ar, como se a partida dela viesse com uma grande maldição que cai sobre nós que ficamos, mamãe era mais Jesus do que o seu próprio crucifixo pra mim. Ela tentava adivinhar o meu destino o tempo todo e só errava, mas ela acertou o dela. Ela sempre me avisou que iria antes de todos e cedo. Que eu veria… Eu vi. Ela acertou e eu não posso ligar pra ela, ou contar a ela que “mãe, você tinha razão”.

Dizem que eu tenho um dom de cuidar dos outros, tanto no mapa astral, como na etimologia do meu nome ‘Camila’, somado a isto, sou de um país latino -americano, operária e mulher, o que resta de mim se não ser uma serva dos dias… Eu não tenho fé religiosa mas sou a pessoa com mais fé que alguém possa conhecer, acredito nas pessoas, na humanidade, no amor. Mamãe que me ensinou a ser assim.

Agradeço à Fabrina Martinez por me apoiar, mesmo involuntariamente, neste processo difícil que é estar viva apesar da morte da mãe. O seu livro foi o apoio mais verdadeiro que pude ter contato, acho que realmente existe uma comunidade das filhas sem teto. Vou terminar de ler seu último capítulo, mas antes precisei parar e derramar essas palavras sem ainda nem entender o motivo por elas terem saído assim e não assado, tive que parar uma manhã para escrever a página da minha história, agora bebo um café, mordo a tapioca feita pelo meu companheiro enquanto escrevo olhando para este verde-água que encapa o livro “Sabendo…”.

Abro a última página e continuo até o fim.

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Sem categoria

Colagem feita por mim através do aplicativo #picsArt

meus deuses votaram em poucos segundos

pelo rebuliço!

suas assembleias são zumbidos na cachola

deliberaram o soco, executei, na cara do infeliz que

jura processo e tiro; não verga nem cai

meus nós dos dedos partidos

riscos na pele escorregando pela língua a dentro

as garras coçam o esôfago, esofagite

arranho um teco do estômago, gastrite

erupções e mix de sucos, psoríase

pesadelos, suores noturnos, despertador de gritos, psicanálise

eco na caixa craniana das

folhas secas no pé do ouvido

a mudança foi feita, estive distraída

os deuses levantaram poeira, dobro o joelho

oca, cabeça balão, deslocada do tronco ao céu

na calçada ao meio dia eu queimando na fila dos réus

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ensaios

Assalariada Isolada

Ilustração de Sally Nixon

Estou isolada fisicamente do mundo. Uma desocupada, improdutiva, no meu íntimo. Mas não com o peso de quem escutaria do Dória tais afirmações, mas com a surpresa de uma preguiçosa que escuta e estica todos os dedos do corpo. Sinto muito por aqueles que não conseguiram parar e respeitar o isolamento. Não é culpa deles, nem culpa minha, não há culpados e nem cruzes, os responsáveis são os empresários que provaram , mais uma vez, quem é que manda no Governo.

Também sofro com as incertezas, obviamente, tento segurar cada certezinha com unhas e dentes. Resultado: a doida! Hipocondria, dormidas ao amanhecer, repressão de sentimentos. Tenho a impressão de que sou fugitiva do meu corpo. Estou off aguardando algum dispositivo me conduzir ao próximo ano. Uma vacina injetada no cú, uma tremedeira e a urgência da orgia em comer um hot dog ou grego com as mãos sujas e lamber o punho pra segurar o catchup de goiaba escorrendo com a ponta da língua.

Me ausentei do blog pois não tinha necessidade nenhuma em escrever o quanto é bom escrever pra viver já que eu não posso nem me levantar e ir trabalhar. Tava saturada, esgotada e calada. A conclusão de todos meus textos são, escreva! Escrever só é uma sistematização da imaginação. Tem pessoas que preferem sistematizar programas de computador, outras um quadro ou, simplesmente, as gavetas do guarda-roupa. E é sobre isso que tento falar por aqui. A escrita projeta fora de mim a necessidade de um sistema em que eu tenha algum controle sobre o tempo que seja mais próximo do meu corpo do que das imposições do Mercado. Não queria projetar essa vergonha de um tempo escasso da espera…

Uma outra diferença particular em sistematizar textos é o exercício constante da alteridade. Eu penso em vocês, leitores, o tempo todo, até me transformo em vocês na revisão. Esse contato virtual que a escrita e leitura proporcionam me ajudou a sair desse mudismo deprimente e auto punitivo e enfrentar o isolamento social com mais facilidade, pois havia algo de familiar nisso. Li mais, talvez, pois deixei de ler as pessoas e paisagens, me restringi à linhas. Não consigo me adaptar ao produtivismo das lives. Meu ganha – pão vem dos transportes e não da cultura. Não preciso me desdobrar imensamente pra fazer acontecer, mas me solidarizo por quem faz, para quem vive disso. Quem encontrou esse caminho.

Como uma boa proletária que sou, sempre obedeci as regras dos assalariados, deixando tudo que não fosse a minha independência de segundo plano. Assim subsisto. E 2020 é o meu ano, o ano que tem como foco sobreviver e nada mais. Aos muitos que estão sofrendo hoje com privações, eu digo, bem vindo ao mundo! Só me resta escrever, este poder está nas minhas mãos e sou livre pra transformar.

Não me acostumo com as mil mortes diárias, continuarei sem nenhum remorso sendo uma desocupada enquanto posso, pois nunca poderia ter ficado tanto tempo longe do trabalho se não fosse uma catástrofe dessa amplitude. E assumo isso, faz parte do processo… Não virarei uma rola-bosta por ser do grupo de risco. Sou, assumidamente, uma assalariada isolada. E escreverei essa experiência.

Ilustração Sally Nixon

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Escrita Compartilhada Escrita Curativa Escrita por hábito Quarentena

Limpar a Máquina

Ilustração feita a partir do #picsart

Num curso de Escrita Criativa, com Angélica Freitas, aprendi sobre o termo Limpar a Máquina. Guimarães Rosa, antes de começar a escrever suas estórias em sua máquina, batia rapidamente as primeiras palavras que vinham em mente para, junto delas, os borrões de tinta coagulados se soltarem na folha de papel. Desde então, passei a chamar minha escrita rápida e sem edição em meus cadernos (que nunca leio) de Limpar a Máquina.

O poema a seguir se desdobrou de uma limpeza. Depois de um acúmulo de leituras e informações, veio aquela sensação de inspiração, que no meu caso nada mais é do que os pensamentos abarrotados querendo expelir da minha imaginação. Fiquei tão satisfeita com algumas frases que as promovi versos. Editei, sim, deixou de ser o Limpar a Máquina, mas tentei respeitar o núcleo do meu poema que é o não compromisso com a objetividade, deixar as coisas escaparem. Sobre o Dreher, pois bem, poderia ser algo mais icônico, porém, minha realidade proletaria ficou entre Corote e ele. Afinal, escrevo sobre o que engulo ou engoli.

*

Leitore, o poema se lê devagar, nenhuma palavra foi escolhida sem ser analisada. Um poema, às vezes, leva mais tempo de leitura do que um romance! Mas, tranquilo, não é o caso desse…

Boa Leitura!:

escrevo por vício.

cada palavra descoberta a mente se amplia

parece físico, viagem de ácido lisérgico

cabrestos evaporam

chove purpurina

som dum sax com corpos costumizados em ritmo de

maxixe; serpentinas

se aquietar só ao crepúsculo

: laranja numa cambalhota arroxa.

palavra: ferramenta duplicadora de experiência

crueldades destruidas pelas classes gramaticais & bom gosto, sa.

corajosos com meia garrafa de dreher, me dêem papelcaneta que

mostro coragem…

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Escrita Curativa Memórias

Escrever e Cozinhar: praticar sozinha mas degustar em conjunto!

Colagem digital feita por mim.

Quando o câncer de minha mãe se demonstrou ser mais agressivo do que supliquei em preces… foi o pior baque que tive na vida :(.

Um calor eletrizante passou pela minha dorsal até o crânio. Respirava fundo pra tirar a concentração do meu corpo pifando e olhava o caminho, não pude chorar na sua frente. Fiquei muda pra ela não escudar a voz trêmula.

Escreveria sobre a dor e resultaria disto textos verdadeiros de um eu-lírico vulnerável e, por tanto, mais real. Não estou sozinha. Isto me ajudou a saber que eu conseguiria dar mais um passo.

Obviamente que não pensei exatamente assim. Foi mais um desabafo no Diário que me revelou essa máxima, um senso comum, talvez, carimbado desde Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Meu barco seria a caneta bic e o oceano qualquer superfície rabiscável. Em memória, mamãe viverá.

Presa por 2 meses – sem ela a 3 meses, com uma depressão me chamando pra não levantar da cama, mesmo após 9h de sono, ou deixar de escrever pra fazer qualquer outra coisa -, quando escrevo, tudo parece cansativo e estúpido, esquizofrênico já que ninguém lê este blog! (Meu eu sabotadora que escreveu o último bloco, uma vez que meus fiéis amigos leem e isso que importa).

Mamãe ter morrido com 57 anos me machuca. Não aceito as coisas como elas são. Dói saber que ela estava na minha frente chupando uma casquinha e eu sentia seu cheiro de alfazema misturado com coco e abacaxi do sorvete e que a perdi, não a abraçarei nunca mais, não escutarei suas reclamações e seu tom jocoso.

Comecei a ler “As pequenas Virtudes” de Natalia Ginzburg, num ensaio ela diz algo sobre a felicidade fazer com que escrevamos fantasias e a tristeza memórias. Ler isso me deu coragem pra fazer mais memórias e publicá-las, apesar da insegurança terrível, pois parece que nas memórias não vemos aquela transformação da personagem no final do texto com tanta substância quanto na fantasia. Parece que na fantasia tudo se encontra em um campo aberto e livre no sol reconfortante da tarde. Na memória só labirintos noturnos com iluminação à vela perigando apagar por ter muita água parada refletindo o breu.

Aprendi que quando vivemos acontecimentos graves fica mais difícil precisar as palavras. Tá doendo pra caralho, mas é tão clichê a narrativa da filha com a mãe em estado terminal ou incomoda tanto falar disso, por reviver os momentos arrebatadores da doença, que só consigo me criticar e achar superficial qualquer coisa que eu tenha pra falar.

Por um outro lado, a pandemia me criou a necessidade de cuidar dos meus alimentos, saber quanto eu gasto, o que compro, onde e o que faço, quanto dura um saco de arroz, por exemplo. Mudei minha rotina drasticamente. E a prática de fazer a comida todos os dias está a refinando e dando mais sabor. Não fiquei me martirizando quando queimei as cebolas do arroz e foi fundamental queimá-las: encontrei o tempero entre dourar ou amargar. Compreendi, não importa o cardápio, tudo começa com a cebola e sal. Essa pequena descoberta, que já havia escutado antes de tantas cozinheiras e não seguia, fazendo um caminho mirabolante de temperos para minar a falta de gosto, foi crucial pra eu me sentir num elo feminino de ancestralidade e cura.

Se por um lado escrever o presente tá difícil, cozinhar tá me aproximando de um lado mais afetivo onde, inclusive, lembro muito de mamãe sem sofrer. A entendo, a admiro, mulher com 3 crias pequenas e almoço e janta (!). Acho que jamais conseguiria ser mãe, muito menos como ela foi, dando autonomia aos filhos. Entendo agora suas opções erradas, do ponto de vista nutricional, como salsicha e nuggets. Ela juntava a praticidade, dentro de uma tripla jornada, com o desejo infantil de comer coisas “gostosas” pra além do pé de alface. Essa generosidade dela, tão marcante em diversos aspectos, eu revivo todos os dias com o calor do fogão na barriga. Falar de comida quando se está engasgada se tornou meu coringa, todos comem. Todos gostam de comida. As palavras voltam na boca e as mastigo sem pressa.

no coração da casa

susto! lembro, salto e corro

“ queimou? queimou! queimou…”

nos 3 segundos que nos separam já via o estrago

chego à porta da cozinha apagada

a chama azul achatada na escuridão me paralisa, exposto, o coração da casa encanta, caminho em câmera lenta até a boca do fogão. com os olhos arregalados, ergo a tampa, umedeço o rosto, vejo um poço sem fundo, farejo.

acendem a luz

enrugo a testa

: está no ponto: repolho estufado pelo caldo reduzido e a colher de pau desgruda facilmente a comida da panela

o aroma quando destampado

movimentou o sofá lá na sala

arrastou a cadeira do quarto

trouxe o indicador do meu irmão até o interruptor

(não me compreendendo plantada no escuro)

– tô com fome, tá pronto?

(sem a amargura do queimado

e os nutrientes duma família tornados carvão)

– uhun. chama o papai – impassível – pai! vem comer! – grito

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Escrita Compartilhada

Não tão solto ou ninguém é inocente em SP

Divulgo o texto da minha amiga e companheira de trabalho. Ela é conhecida como Astrovalda nas redes. Prefere o anonimato. Brinco que com este nome e a foto que colocou no seu perfil, seu contorno contra o sol, nós associaremos muito mais rápido do que se fosse o nome do seu RG, um nome popular entre nós. Questão é que ela tem o blog:

https://reflexoesescritas.home.blog

Suas reflexões escritas estão mais pra crônicas contemporâneas num tom brega – videokê ao fundo, tão latino e passional, embrenhado em memórias onde ela alinha sua vida aos acontecimentos políticos. Não quero reduzir o blog a isto, mas é essa força identitária que vejo em sua escrita: a estreita ligação entre uma amante da mpb lado b e com a crítica feroz da sociedade, me fascina. A minha amiga é incansável na escrita, escreve quase todos os dias há anos. Deixo o convite pra vocês se inspirarem por ela também. Boa leitura

Para Thaís.

Dois meses e dez dias.

1- O médico disse que o tratamento está evoluindo muito bem, a medicação está sendo mais eficaz do que ele pensava.

Mas o doutor não tem remédio pra coração partido. É igual a virose, só o tempo que cura, não há o que fazer tem que doer.

2- “Olha só essa reportagem! A Suíça mostra ao mundo a pobreza que tenta esconder, em frente aos vidros dos comércios luxuosos, fila de estrangeiros (alguns ilegais) para pegar comida! Agora olha essa outra foto aqui, que linda!”

Vamos debater? Por que tudo perdeu o sentido e a cor? Por que ainda quero falar contigo? Não sei, não sei, eu sempre penso que seria mais fácil esquecer… Vou fumar um baseado e me transpor para fora de mim.

3- Será que percebeu a fase da alegria e da dor, que tem no texto que te dei?

4- Acho que essa Quarentena/Sessentena/Setentena está me deixando mais louca do que já sou. Uma montanha russa de emoções… E agora, tem essa dor que insiste em doer, mais incômoda que o calo no dedinho do pé, dentro do sapato apertado.

5- Quando você falou comigo depois de tudo, senti inúmeras coisas, menos alegria. Um aperto no peito, tremores e uma solidão absurda. Seu espectro transformou minha solitude em solidão. Tudo passa, mas, nas 24 horas do meu dia, parece que passam 12 meses, coexiste uma dor antiga de 10 anos, ou seriam 10 dias?

Não sei se você é tranquilo mesmo, ou cínico… Mas nem pude curtir minha tristeza. Foi engano. Dois dias depois, eu nem esperava e você apareceu, quer manter minha atenção, para que eu não disperse? Fui tão útil em aplacar sua solidão na Quarentena?

Fucking engano! Por essa eu realmente não esperava! Eu esperava qualquer motivo de sempre e não uma porra de engano! Foi engano, coincidência, ligeiro equívoco, mal-entendido, um erro grotesco…

” Deixa, deixa, deixa eu dizer, o que penso dessa vida, preciso demais desabafar.

Suportei meu sofrimento de face mostrada e riso inteiro.

Se hoje canto meu lamento, coração cantou primeiro…”

Cláudya

6- A vida é ilógica e não quero mais entender. Vou pegar o carro e dirigir por aí, sem destino. Dirigir me acalma, vou zerar a playlist de todas as músicas de fossa que conheço e vou dirigir até quase esvaziar o tanque.

Viajo dentro dos limites municipais e passo por lugares que nunca fui, ou fui há dezenas de anos atrás. Começo explorando os rincões da Zona Leste e onde achei que era mato, é zona urbanizada. Sobrados coloridos, alguns geminados, outros tantos ladrilhados. A arquitetura periférica é muito parecida, seja em Itaquera, seja no Complexo do Alemão, ruas asfaltadas, esgoto encanado e a “favela tradicional” está cada vez mais às margens, nos
lugares ocultos da cidade; a classe C se importa muito e se esmera para que suas casas tenham uma boa aparência.

O Estado é pouco ou nada presente nesses bairros, então por que as pessoas atenderiam ao pedido institucional da ​#ficaemcasa ​ ? Sem nenhuma contrapartida segura de manutenção de renda para isso?
Comércio pujante, barulhos, movimentação contínua. Não precisamos mais “​ir ​ ​à cidade” comprar o que queremos. Pessoas correm e caminham despreocupadas nas avenidas com canteiro central, ambulantes nos semáforos vendem quase tudo o que precisamos ter dentro do carro, mas, não vendem nenhum produto eficaz para esquecer. Esquecer essa porcaria de país, essa desgraça de desgoverno federal e as falácias do Dória escroque, esquecer esse momento de ilusão infundada em que mergulhei, para arrefecer essas tristezas globais e essa ilusão agora dói muito, superlativa.

7- Sinto palpitações e muita vontade de chorar. Entro na primeira rua à esquerda, paro o carro rente à guia e ligo o pisca alerta. Lágrimas caem. Não aos borbotões, caem aos poucos e isso me irrita! Inferno! Nem chorar decentemente eu sou capaz. Aí respiro fundo e vem outra onda de tristeza, choro de raiva do meu choro insuficiente e de repente, as lágrimas caem como cachoeira.

8- Desligo o pisca alerta porque a choração é incontrolável. Chorei com gosto, tudo o que represei consciente e inconscientemente, olhos inchados e nariz vermelho. Agora preciso dirigir um pouco mais pra desinchar a cara e voltar pra casa sem ter que dar explicações adicionais, só explicar que os pneus estão sujos de tinta de guia, porque meu pai vai perguntar sobre isso, ele sempre reclama disso. Que desalinha o carro, que só motorista cabaço suja os pneus dessa forma, mas não é intencional, nem precisa bater o pneu é só encostar de leve que já suja, mas ele não entende…

Bem, dos males o menor, prefiro explicar a teoria dos pneus sujos do que falar a verdade sobre meu coração, ninguém entenderia.

Se um vai perder, outro vai ganhar.

É assim que eu vejo a vida e ninguém vai mudar.

Eu daria tudo, pra não ver você chumbada, pra não ver você baleada.

Pra não ver você arreada ​ .
A mulher abandonada.

Mas não posso fazer nada, sou só um compositor popular.

Sérgio Sampaio

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Escrita Curativa Memórias

Balanço literário

Ilustração de Aja Trier misturando Hayao Miyazaki com Van Gogh

Minha brincadeira predileta na infância era fazer histórias antes de dormir, eu falava que era tipo gibi, por ser minha referência literária. Dois fatores foram decisivos pra eu ter começado a ser uma leitora assídua: o esnobismo que envolvia a literatura, sua distinção, me fazendo crer que quem tivesse cultura era melhor do ponto de vista erudito e a literatura pop que, de fato, me deu o acesso ao letramento.

A L&PM pocket alimentou minha pretensão ao publicar clássicos. Então passei a ler seus livros por confiar na editora. Preços baratos, mas confesso, eu mangava os livros na banca de jornal. Um Nietzsche perdido aqui, um Shakespeare lá. Me animava quando conseguia concentração total em alguma obra. Desmistificando o papel difícil da leitura. Quando terminava alguma obra filosófica, Platão, por exemplo, sabia que não havia entendido as inúmeras camadas, pelo seu distanciamento espacial e temporal, mas por ter ido até o final eu me orgulhava de mim e, juntando um elemento aqui, outro acolá, era feliz em saber as referências certas em outras obras.

A pop foi da turma da Mônica, toda ida ao banheiro eu levava um gibi. Minhas histórias mais memoráveis é quando eles faziam hipertexto e parodiavam os clássicos. De alguma forma o encantamento de estar envolvida num mundo extremamente literário me arrebate desde cedo.

Romeu e Julieta da Turma da Mônica

E assim, antes de dormir, fazia minhas historinhas na cabeça, que duravam anos, pois a cada noite eu dava uma pequena continuidade. Eu era um princesa, caro, mas em branco e preto, uma diva do cinema de cinturinha fina. E ao mesmo tempo tinha todas as capacidades masculinas da infância, apesar de, na minha cabeça, eu já ser uma mulher, mas eu sabia dar piruetas, subir em árvores, era forte e ágil, com um corpo lânguido e delicado, sabia cantar, pintar, encenar, o que for. Na realidade era bem gordinha e desengonçada, os meninos não faziam fila por mim. Fui modificando tal narrativa conforme eu via de fato os prós e contras da vida.

Numa sociedade escravocrata como a do Brasil, sou branca, filha de pessoas que vieram da roça e se proletarizaram em SP, me deixou com certos privilégios. Meus prós é que mesmo desengonçada e hipersensível (chorona), ainda tinha meninos interessados em mim, pois meus olhos eram quase verdes, meu nariz pontudo, cabelos lisos, melhor dizendo, minha paleta de miscigenação era húngara, libanesa, italiana e indígena. Pela pele desbotada, ficava entre as mais bonitas. Barbárie de crianças. Mas que foi colocando na minha cabeça cada vez mais a necessidade de me aproximar a uma elite ideológica.

A adolescência como ela é, apesar de tanto preconceito naturalizado, meus namorados, amigas, vizinhos eram em sua maioria pessoas pretas ou pardas, como elas se definiam. Aprendi a sambar com eles e nunca mais fui desengonçada da cintura pra baixo. Aprendi que ser chorona e nervosa era mimo demais, que eu tinha muitos direitos dentro de casa, que na escola, no bairro não seriam assim. A gama de gíria e malandragem que envolvia a Vila Madalena na década de 90 foi o suco da minha formação. Meus pais, embora brancos, eram singelos, generosos e humildes.

Mesmo assim, entrei na faculdade me sentindo inferior, de escola pública, na USP, era uma das poucas que vinha de família proletária. Quis me apegar ao esnobismo da alta cultura por medo. Mas logo vi que o que mais me enriquecia era minha dignidade, da onde eu vim. E fui tacando o terror, me sentia o Gegê do Mangue na FFLCH. Não deixava nenhum playba me humilhar. E, no fundo, os desprezava.

Na literatura achei um certo equilíbrio, nunca abri mão dos clássicos. Mas leio muito mais as vozes contemporâneas e populares. Me inspiro nelas e fiz meu primeiro livro de ficção apostando na minha história: falar sobre a subjetividade de uma trabalhadora.

Dedico esta memória a minha amiga Dani, uma das pessoas mais inteligentes que pude inspirar a escrever e que hoje, ao contrário, ela que me inspira